"Ter
um filho desaparecido é ter a vida suspensa!"
Meu nome é
Arlete Caramês, sou Brasileira, residente em Curitiba, Paraná, Brasil;
tenho 56 anos e sou casada com
Ewaldo Oscar Tiburtius.
Somos um casal simples,
pais do GUILHERME CARAMÊS TIBURTIUS e juntos formávamos uma família
feliz! Mas, a felicidade
acabou...e, nós saltamos do anonimato, atingidos por uma tragédia: O DESAPARECIMENTO DO
NOSSO PRIMEIRO E ÚLTIMO FILHO - O ÚNICO: GUILHERME.
Minha
vida tem duas fases, duas histórias; a primeira fase da minha existência
é a da filha, da profissional, da esposa feliz e orgulhosa de ser a
mãe do GUILHERME. A segunda fase, o espaço que hoje ocupo é ainda o
mais curto, entretanto o mais longo, após aquele fatídico 17 de junho de
1991, por ironia o dia do aniversário de minha mãe, que seria um dia de
festa e que se tornou no maior pesadelo de nossas vidas.
A tragédia que hoje
enfrento, só é compreensível quando a encaro como uma fatalidade, ou
talvez quem sabe, predestinação.
Na Bíblia, que é a palavra de nosso
Deus, Jesus afirma em João, Capítulo 14 , Versículo 2 , “Na casa do
Meu Pai, há muitas moradas.” Compreendi, após muita dor, que estou na
“morada das provações”; que tenho uma tarefa a cumprir; testar minha
tenacidade de mãe, minha capacidade de luta, fé, coragem e esperança,
compartilhada ao trabalho doloroso e abnegado de caminhar sempre,
desanimar nunca... E de ter a certeza de que um dia vou encontrar o filho desaparecido da minha companheira de dor,
assim como meu próprio filho
GUILHERME. No dia l7 de junho de
1991, nós trabalhávamos fora e nosso filho brincava em frente à nossa
casa num bairro de classe média em Curitiba. Dentro de casa, minha mãe,
o observava de tempos em tempos. Apesar de todo cuidados e atenção,
GUILHERME foi seqüestrado de nossa vida, da nossa família, dos nossos
cuidados, do nosso amor ... E
ELE SÓ TINHA OITO ANOS E MEIO
de idade!
Desde então, já se
passaram quatorze anos. Neste longo caminho, constatamos no dia a dia,
grandezas e misérias. Foram e são centenas de informações, de cartas,
telefonemas, de pistas; tantas demonstrações de solidariedade, nos cartões,
nas orações daqueles que se irmanam na dor; e também, muitos trotes,
tentativas de extorsão, que atestam a insensibilidade do ser humano,
diante do sofrimento alheio.
São quatorze anos de um calvário
sem fim, de uma luta sem tréguas, de noites e dias intermináveis, de dúvidas,
de sofrimento... de muita, muita SAUDADE! Afinal, "ter um filho
desaparecido é ter a vida suspensa!" É pior do que a morte! Porque
a morte, por mais violenta e dolorosa que seja, o tempo se encarrega de
aplacar a dor, pelo simples motivo de que ela é inexorável. E diante do
inexorável, o ser humano trata de se defender. Aos poucos, o sofrimento
diminui, a pessoa se recupera e a vida segue seu fluxo normal. Mas, isto não
acontece quando, misteriosamente, o seu filho é seqüestrado. Quando lá
fora há fome... chuva... frio... desabrigo... violência... Para os pais,
o simples ato de comer, de se cobrir, de se vestir e até de sorrir, é um
ato doloroso. Como comer, se o filho pode estar sentindo fome?
Como se
agasalhar, se o filho pode estar passando frio... miséria... desamor...
sofrimento e violência? Como sorrir... se o filho pode estar chorando?
No início do desaparecimento do Guilherme, tornei-me pó... cinzas nada
além de um muro de lamentações. Aos poucos porém, tomei conhecimento
de outros pais, mães
e avós, que assim como eu e meu marido, que também foram vítimas da
mesma fatalidade. E aquilo que era no princípio a dor de uma “mãe em
busca de seu filho, tornou-se em algo muito maior, quando nos unimos em
uma Organização – “MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DA CRIANÇA
DESAPARECIDA’’.
E hoje o CriDesPar, através
de um trabalho integrado com o SICRIDE – Serviço de Investigação de
Crianças Desaparecidas e DVC - Delegacia de Vigilância e Capturas, da Policia Civil do Estado do Paraná, já
solucionou muitos casos e muitas famílias tiveram o privilégio de terem seus
filhos de volta ao lar.
O que queremos não é
piedade, é oportunidade, é solidariedade e apoio. Precisamos de ajuda,
principalmente, dos órgãos de Comunicação, para divulgarmos este
trabalho e as fotos de NOSSAS CRIANÇAS; não só no Brasil, mas em todo o
Mundo!